O Império

A maioria dos Impérios, num primeiro momento, procuram a inclusão universal, isto é, independente da raça, credo, cor ou gênero a que pertencem, todos são bem-vindos. Em seu momento de inclusão ele é cego para as diferenças, funcionando como uma máquina de integração, uma espécie de comunidade sem restrições para seus novos membros, convidando todo mundo para entrar em seu domínio, evidenciando sua face liberal.
O importante nesse momento de construção desta organização imperial é tratar todos como iguais. Assim, criando uma zona neutra, zona que serve como espaço perfeito para estabelecer uma legitimação universal, criando o início do espírito imperial. Logo, pode-se afirmar que o Império é composto por uma multidão de pessoas diferentes umas das outras e que frequentemente são, de alguma forma, exploradas ou injustiçadas por estratégias imperiais. Mas é claro que as diferenças mantidas nesse modelo político são, apenas, as culturais. A teoria é de que esses diferenciais serão incapazes de gerar conflitos incontroláveis e funcionarão como uma identificação regional.
O Império é um poder sem fronteiras sem limites, portanto que aliena, explora e massacra a multidão se esta não lhe oferecer resistência. Aqueles que não se destacam em meio à massa, buscando alternativas para confrontar o domínio imperial, provavelmente, serão engolidos pela máquina capitalista que sustenta as suas bases.
Esse modelo de sucesso que é criado pela sociedade – a lei da selva dentro do capitalismo: “O mais forte sobrevive” - tem forte repercussão e vira meta, obsessão da população, que passa a viver sobre a pressão de êxito profissional. Um forte exemplo é a mídia, exaltando com frequência os profissionais que obtiveram sucesso no mundo do capitalista: o bom empresário, o criador de uma marca revolucionária, a top model, etc. Os meios de comunicação fazem desse status uma necessidade, iludindo a todos que passam a almejar tamanho sucesso e se mantém refém eterna do capitalismo.
A ideia de Império continua viva no meio dessa nova ordem política da globalização, transformou-se com o tempo e pode ser vista no modelo do Imperialismo. Império emergente não é tão diferente da dominação imperialista européia e da expansão capitalista ocorridas no início dos séculos XIX e XX. Países europeus praticaram esse tipo de dominação sobre territórios americanos, africanos e asiáticos através do colonialismo. Na atualidade, é possível notar que os Eua, em sua posição de potência mundial, impôs seus costumes sobre as nações subdesenvolvidas e em desenvolvimento. A hegemonia que os Estados Unidos impõem influencia o dia-a-dia da população mundial, na política, economia, no militarismo e culturalmente.
 Para que a multidão consiga fugir dessa padronização e se transformar em sujeitos políticos é necessário buscar alternativas que desafiem o Império e resistam a ele e a seu mercado mundial. Um movimento contrário a essa massificação do Império. As alternativas para solução devem ter um nível igualmente “global” ou, pelo menos, das mesmas proporções que o Império ao qual deseja-se resistir. Como disse Santo Agostinho acerca de um projeto para contestar o Império romano decadente, nenhuma comunidade limitada poderia ter êxito e oferecer uma alternativa para o domínio imperial; só uma comunidade universal, reunindo toda a população e todas as línguas numa jornada comum, poderia conseguir isso.
 Nesse sentido, uma resposta que pode ajudar a população é a organização de greves e rebeliões, formas de contestar e afetar diretamente os interesses dos Impérios. A união da multidão em torno de uma causa comum, que tem como principal finalidade reivindicar alguns direitos pode fazer desta um sujeito político ativo dentro dos domínios imperiais.
A greve é um instrumento de pressão por parte do povo para conseguir que suas reivindicações sejam atendidas, para isso há paralisação - de atividades de determinada área - coletiva e voluntária, luta pela garantia dos direitos da dita categoria. A eficácia de greves não é sempre garantida, mas quando ela ocorre existe negociação de interesses e ambas as vozes da luta são ouvidas. Mesmo que o lado mais poderoso se imponha e não altere o seu modo de governo questionado, os grevistas podem manter sua posição de oposição, pois sem dominados o dominador perde seu poder.
Já uma rebelião parece ser a ideia mais coerente para ação contra o Império. Esse processo só existe se há necessariamente um poder contra o qual se rebelar. Geralmente as rebeliões originam de um grupo de menor poder político, que vão contra a ordem vigente, assim, não são consideradas legitimas até que consigam derrotar o poder maior e se legitimarem. Para que essa teoria se torne uma ação é preciso que o povo dominado decida não cumprir mais as ordens da autoridade mandante, causando assim uma forma de revolta, rebelião.
Além disso, o êxodo e a deserção são formas poderosas de luta dentro da pós-modernidade imperial e contra ela. Ao invés de fazer uma oposição direta ao Império, como seriam as lutas armadas, essa mobilidade seria uma forma obliqua e diagonal de resistência. A subtração de membros pode acabar de vez com qualquer Império, por mais poderoso que seja. Existem novos meios de ataque, como a Internet, que consegue por meio de vídeos, textos e discussões dos internautas desmentir a manipulação da mídia comprada. Essa nova tecnologia pode fazer papel de ator político, causa polêmica e acesso á dados, crescendo de maneira tão intensa que consegue ser a fonte de pauta para os jornais, ganhando notoriedade suficiente para ser veículo de mobilização, dado voz para a população.
Quem está inserido no processo de massificação imperial precisa percebe-lo, lutar contra os efeitos de alienação. Bastaria o engajamento da massa para a queda do império, que, apesar de ser o poderoso ditador de regras, não é absolutamente nada sem sua comunidade. Através do simples abandono de seus seguidores, o tiro ao regime imperial seria certeiro. Em suma, os muros do Império podem sim ser contornados, com a conscientização das massas sobre o tamanho do poder que têm em suas mãos, será de fato possível a aniquilação de quaisquer regimes políticos.

2 comentários:

  1. É um post muito interessante, visto que ajuda a entender o que acontece com o domínio que várias sociedades sofreram e sofrem.
    Ainda que esse momento em que o centro imperial tenta absorver as massas dominadas de maneira a não prestar atenção nas diferenças, isso contribui para o fim desse próprio poder imperial. Foi justamente o abraço a uma gama muito grande de sociedades que dificultou para o Império Romano a manutenção de seu poderio.
    soft power e hard power são conceitos gramscianos que ajudam a discutir o império tanto no mundo antigo quanto no atual.
    Soft power seria a influencia que o império exerce no campo das idéias, hard power a força bruta. Sendo assim, temos, na história, impérios que se utilizaram de uma, ou de outra, ou mesmo das duas. o Império Romano se viu decaindo quando seu hard power não mais dava conta de controlar todas as sociedades que ele havia conquistado.
    Trazendo a discussão para um momento mais atual, podemos dizer que os EUA utilizam muito mais o soft power com o resto do mundo, ainda que seu poderio bélico seja enorme.
    O soft power norte americano é muito mais sutil. Se temos a greve como forma de responder a esse poder, movimentos sociais, etc. precisaríamos, antes, que os individuos tomassem consciência de que estão sofrendo influência desse poder.
    Com os recentes acontecimentos como a guerra do Iraque, a crise econômica de 2008 e os vazamentos de documentos da embaixada estadunidense, que só comprovam muitas das acusações que já estavam sendo feitas contra o governo, entende-se, para muitas pessoas, que o soft power norte-americano está chegando ao seu fim.
    Seria os EUA capazes de se manterem no poder apenas com seu hard power? Ou estaríamos assistindo ao fim de um dos maiores Impérios desde o Romano?
    E, a partir do momento em que essa percepção de que há uma massificação imperial, de que há uma alienação, seja difundida em toda a sociedade, isso abriria caminho para um mundo sem Impérios, ou apenas definiria o fim de um tipo de poder imperial, até que um outro se estebelecesse de forma mais sutil, ou ideologicamente mais controladora?

    Grupo Política 2010: www.grupopolitica2010.wordpress.com

    Victória Mantoan

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  2. Conrado Ferrato - Grupo Pauta Livre

    Achei bastante interessante o texto, principalmente sua construção - saindo do estabelecimento do império enquanto opção política interessante para todos, até o momento em que a estrutura se transforma em um fardo para as pessoas, que passam a entrar em conflito com o governo.
    A foco que vocês deram as diversas formas de combate ao império também me chamou a atenção. Revelando um panorama extenso das possibilidades de luta contra o "status quo", o texto indica a relevância e iminência deste debate, que permeia os diversos aspectos da vida contemporânea.
    Passando para o lado negativo, acho que enriqueceria mais o texto se tivessem sido usados mais exemplos. No caso das greves, vocês poderiam ter lembrado dos grandes movimentos grevistas do sec XX - que repercutiram no Brasil, com a grande greve geral de 1917 -. O próprio movimento de contracultura dos anos 1960 poderia estar presente no texto, ou, em uma nota mais moderna, os movimentos cibernétcos de ação social, como o Partido Pirata. Acredito que um texto tão rico teria apenas a ganhar com estas citações.
    Por fim, deixa dois links que acho que se relacionam com seu texto. O primeiro é sobre o Provos - um movimento de provocação política da Holanda, que ficou famoso por criar o conceito das "bicicletas brancas", que não teriam dono e seriam compartilhadas por toda a sociedade, afrontando a ideia de propriedade privada tão cara ao Império do Capital -, e o outro é a página do partido pirata português, que tenta levar estas dicussões para o front da rede mundial de computadores.

    Provos - http://www.screamyell.com.br/literatura/provos.html

    Partido Pirata - http://partidopiratapt.eu/politica/manifesto-ppp

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